Pequenos apontamentos sobre a Bibliografia

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Charles Victor Langlois

Em 1896, o historiador Charles Victor Langlois, em sua obra ‘Manuel de Bibliographie Historique’, apresenta a seguinte definição de Bibliografia: parte da ciência dos livros que trata sobre os repertórios e que fornece os meios para a busca de informação sobre as fontes. Tal definição distingue as bibliografias comerciais, dos livreiros, daquelas de natureza científica, que têm por finalidade oferecer informação para estudiosos. Tal sentido de Bibliografia permanece presente em quase todas as definições ainda vigentes em nossos dias. O sentido de Bibliografia como sendo parte da Documentação que se ocupa dos textos impressos, multigrafados, é mais uma etapa da evolução que passou a Bibliografia. Quando a Bibliografia ainda permanece com o sentido de ciência dos repertórios diante do surgimento de novas disciplinas na metade do Século XX: biblioteconomia e paleografia, por exemplo, o exponencial crescimento dos volumes documentários, dos suportes e do crescimento da ciência, a necessidade de controle da informação foi igualmente exponencial, surgindo ai a Documentação como sendo a disciplina de âmbito geral (REYES GÓMEZ, 2010, p. 41, tradução nossa).

Circunstâncias para o estudo em Bibliografia e Documentação

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Ao longo da história, a utopia de acesso a todo o conhecimento numa plataforma singular foi alimentada nos sonhos humanos. Verifica-se desde a Biblioteca de Alexandria com o catálogo Pinakes, contendo 120 assuntos; pelas inúmeras bibliografias ‘universais’ e catálogos coletivos nacionais, da Idade Média à Modernidade, como é caso da primeira bibliografia de caráter geral: “Bibliotheca universalis” de Konrad Gesner, arrolando 15.000 livros que foram classificados alfabeticamente pelo prenome dos autores com a clara intenção de reunir, senão toda, a maior cobertura de assuntos disponíveis nos livros escritos em latim, grego e hebraico, e a primeira Bibliografia Nacional, Grã-Bretanha, elaborada por John Bale, sendo um repertório de livros escritos por autores de um só país: “Scriptorum ilustriu Maiors Brytannie, quam nune Angliam & Scotian uocant: Catalogus”. Estimulado principalmente pela invenção de Gutenberg, tal sonho atravessou os séculos, alcançou e inspirou visionários de um mundo marcado por revoluções culturais, políticas, científicas, tecnológicas que ainda persistem em modificá-lo de algum modo. Sociedade da Informação e Sociedade do Conhecimento são denominações recentes que aparecem com frequência na mídia e nas mais diversas esferas, do acadêmico ao puramente coloquial. Essas expressões referem-se ao fenômeno do crescimento vertiginoso da quantidade de informações circulantes com uma dinâmica imparável. Furedi (2015, não paginado, tradução nossa) argumenta que com as mudanças tecnológicas, sobretudo, o advento das tecnologias da informação e comunicação, a sociedade estaria se afogando em uma enxurrada de informações trazidas pelo ritmo frenético da mudança tecnológica e acrescenta que “um passeio pela história, no entanto, nos mostra que essas preocupações não são novidade”. Pode-se dizer que, o advento dos tipos móveis de Gutenberg foi o marco para a escalada da ‘explosão da informação’. Concomitante a este fenômeno, os modos de buscar e consumir informação dos grupos humanos têm sido modificados pela exposição à informação e pelos processos de sua transferência. Na década de 1950, Bradford cunhou o termo ‘caos documentário’, expressando a necessidade de se haver mais esforços coletivos para problemas de informação através da organização e controle da informação. Ao fim da década de 1980, Wurman (1989) trouxe a noção de ansiedade da informação relacionada com a explosão informacional capaz de gerar patologias agonizantes, inibindo, por exemplo, a capacidade criativa individual ou coletiva. Com o advento das tecnologias baseadas em rede de computação, percebe-se uma mudança radical nos sistemas de transferência de informação. Se a abundância de documentação já existente podia produzir efeito de frustração para estudiosos e pesquisadores que queriam descobrir tópicos de seus interesses, a irrupção da nova mídia baseada em rede só contribuiu para o problema. A cada ano, centenas de milhares de livros, artigos, teses de doutorado, relatórios, páginas da web etc. são criados, e a documentação convencional sofre mudanças ou substituições de formatos, causando uma sensação de perplexidade e desamparo entre aqueles que buscam velocidade e eficiência na obtenção de informações (CORDÓN GARCÍA; LOPES LUCAS; VAQUERO PULIDO, 2001). Nesse aspecto, a sobrecarga da informação não está limitada apenas aos sistemas de informação, traz em si questões sociais capazes de comprometer o próprio avanço do conhecimento, seja pela dispersão de dados ou pela dificuldade de o sujeito manter-se informado, e nisso, residem ainda os problemas inerentes à formatação dos caminhos neurais humanos (CARR, 2010). Na Era Digital, por exemplo, a exposição excessiva a dados pode oferecer a sensação de disponibilidade total; contudo, isso pode causar ansiedade por mais informação (CASE, 2012). Furedi (2015, não paginado), em sua analogia da Era Digital à Era da Distração, argumenta que: “o ritmo frenético da mudança tecnológica torna difícil, se não impossível, concentrar-se em livros e textos desafiadores”. No campo da comunicação científica, Mueller e Santos (2000) destacam que no berço de estudos na área da informação, o tema comunicação científica foi explorado por métodos quantitativos, como por exemplo, nos estudos de citação, e com o tempo, foram a eles acrescidos de métodos da Sociologia da Ciência, o que permitiu tratar a ciência como fenômeno mensurável. No entanto, o conhecimento científico depende da acumulação de sua literatura por meios lógicos de aceitação coletiva e colaborativa, organização permanente, armazenamento e transferência. Isso expressa também que o acúmulo na comunicação em ciência em si representa relativa sobrecarga de informação, seja em canais formais ou informais de comunicação. E quanto maior é a produção dos registros do conhecimento, maior se torna a necessidade de oferta de serviços e produtos elaborados pelo trabalho bibliográfico, o que faz da Internet, e tudo que há nela, por exemplo, uma fonte a mais para a Bibliografia e a Documentação. Pois, como Peter Drucker (1999) já havia observado ao fim do Século XX, a experiência humana com a Tecnologias da Informação e Comunicação demonstra que elas são maiores produtoras de dados e não de informações, úteis para tomadas de decisão. Partindo da noção de uso da informação, trocamos, difundimos e consumimos informação a todo momento e há muito a ser pesquisado nesse sentido. No início do Século XXI, as bases de dados em linha se multiplicaram e as bibliotecas digitais cresceram exponencialmente, difundidas mediante modelos operacionais como tentativas de colmatar o fosso digital e limitações físicas de acesso a informações. No entanto, nenhum modelo de biblioteca digital pode ser considerado definitivo, nenhuma base de dados pode ser considerada completa, nenhum sistema de recuperação da informação se demonstra totalmente eficaz. Mesmo diante da evolução de tecnologias Web, a constante modificação dos usos e o emprego de novas tecnologias ditam novos versionamentos funcionais; desse modo, influenciando comportamentos de busca e consumo entre suas comunidades de utilizadores. Além disso, a literatura especializada concebe empreendimentos em gestão da informação como condição para se endereçar os melhores esforços de tomadas de decisão ou quaisquer outros usos da informação. Essas e outras inquietações do Século XXI refletem antigas questões; prioridades do trabalho bibliográfico, que acompanham quaisquer mudanças inerentes à natureza dos sistemas de informação. Se as constantes mudanças da comunicação da informação tiveram o trabalho bibliográfico como uma necessidade social, questões de quantidade e qualidade foram ampliadas na Era Digital. Os problemas de informação permanecem inerentes à inflação de dados correntes nos contextos de seu uso, e potencializados com a mudança do ambiente informacional, pós advento da Web 2.0. Os alardes relativos à sobrecarga da informação fecundaram, dentre outras, noções como caos documentário, explosão da informação, ansiedade da informação, mensuração da ciência e mais recentemente Big Data. Desde então, proporcionalmente, o trabalho bibliográfico parece ter sido empregado à busca de solução em quaisquer contextos de sistemas informacionais; e o documento, em todas possíveis arquiteturas e formatos, aguarda seus utilizadores. O percurso histórico do acúmulo documental e a sobrecarga da informação também indica que a Bibliografia e a Documentação permanecerão necessárias, levando aos horizontes do uso da informação tantos outros assuntos que caracterizam o presente e o futuro do trabalho bibliográfico. Todavia, os valores atribuídos à informação evidencia que a humanidade continuará a buscar a quimera de ter acesso a tudo em um único lugar. É em todo esse contexto que os estudos no campo da Bibliografia e Documentação continuam a ser atuais. O futuro do trabalho bibliográfico continuará a desenvolver-se na seguinte proporção: quanto maior o valor social à informação maior se exigirá instrumentos e produtos que possam tanto representar a informação quanto recuperá-la, tendo como essenciais a disponibilidade de informação e o controle bibliográfico como condições em torno do processo de conhecimento que se destina ao uso da informação.

Referências

CARR, Nicola G. The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains. New York: W. W. Norton, 2010.

CASE, Donald O. Looking for information: a survey of research on information seeking, needs, and behavior. 3rd ed. London: Emerald Group, 2012.

CORDÓN GARCÍA, José Antonio; LOPEZ LUCAS, Jesus; VAQUERO PULIDO, José Raul. Manual de investigación bibliográfica y documental: teoría y práctica. Madrid: Pirámide, 2001.

DRUCKER, Peter. Desafios gerenciais para o século XXI. São Paulo: Pioneira, 1999.

FUREDI, Frank. Information Overload or a Search for Meaning? The American Interest, [S. l.], 2015.

MUELLER, Suzana Pinheiro Machado; PASSOS, Edilenice Jovelina Lima (Org.). Comunicação científica. Brasília, DF; Universidade de Brasília, 2000.

WURMAN, Richard Saul. Information Anxiety. New York: Doubleday, 1989.

NOTA SOBRE O INCÊNDIO NO MUSEU NACIONAL

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A Sociedade Bibliográfica Brasileira (SBB) se solidariza com todos os profissionais que se propuseram e se propõem a reerguer o pouco que resta da nossa memória nacional, sejam os estudantes, pesquisadores e professores.

Independente de quem tem culpa sobre a situação, é inegável que a nossa educação e cultura tem sido negligenciada constantemente há muitos anos, há muito utilizadas como palanque eleitoral de medidas que nem ao menos ajudavam na sobrevivência desses lugares de memória nacional.

Os museus, os arquivos e as bibliotecas nacionais, como instituições de memória cultural, são responsáveis pela salvaguarda de todos os artefatos que nos mantêm enquanto civilização. E uma sociedade sem memória, sem história e sem civilidade está fadada a perecer.

Reforçamos publicamente que, apesar do nosso foco no patrimônio bibliográfico, nossa luta também é a favor da conservação e preservação do patrimônio cultural brasileiro em seu conjunto, bem como o desenvolvimento de pesquisas e avanço do conhecimento científico para todos.

 

7 conselhos para bibliógrafos, por Arundell Esdaile

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“Correndo o risco de parecer sério demais, acrescentarei sete mandamentos aos bibliógrafos:
1. Seja honrado, e pense bem em sua vocação;
2. Seja humilde, e não despreze os detalhes;
3. Seja preciso, em pequenas e em grandes coisas;
4. Seja breve;
5. Seja claro;
6. Não tome nada por confiança, exceto em caso de necessidade, e mesmo assim, não sem dizer isso. Tem havido muitos bibliógrafos ruins e errar é humano;
7. Nunca adivinhe. Esteja certo de que será descoberto, e então você estará inscrito como um dos maus bibliógrafos, do que não há destino mais terrível”.

ESDAILE, Arundell. A student’s manual of bibliography. Londres: George Allen & Unwin Ltd., 1963. p. 37. Disponível em: < https://ia801606.us.archive.org/30/items/in.ernet.dli.2015.462497/2015.462497.A-Students.pdf >. Acesso em: 25 ago. 2018.

Sobre liberdade de expressão na Internet

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Nós, da Sociedade Bibliográfica Brasileira, ainda não iniciamos a nossa atuação de forma oficial. Estamos ajustando algumas coisas, mas, em breve, teremos novidades. Entretanto, devido a acontecimentos recentes que consideramos muito graves, resolvemos falar sobre algo que tem esquentado debates nesta rede social: a censura.

Nosso grupo de pesquisa não tem intuito algum de se engajar politicamente. Os coordenadores têm as suas ideologias políticas, todavia esse não é e jamais será o nosso objetivo. Contudo, como as polêmicas recentes estão muito ligadas à informação, sendo bibliotecários em primeiro lugar, decidimos falar um pouco sobre esse assunto delicado e gravíssimo que está circulando por aí.

O Facebook resolveu desativar 196 páginas e 87 perfis de usuários ligados à Direita política. O motivo, segundo a rede social, seria o fato dessas páginas propagarem as famosas “Fake News” e estarem influenciando os usuários de forma negativa. Todavia, a rede social mudou o tom e deu outra desculpa, porém não estamos tão por dentro dessas últimas novidades.

O fato é: o Facebook, aparentemente, excluiu essas páginas apenas por serem páginas de Direita. E, nos últimos dias, vimos diversos usuários comemorando e parabenizando a atitude do Facebook, entre eles acadêmicos, e, principalmente, colegas bibliotecários que não gostam de determinados grupos que faziam parte dessas páginas.

A grande questão é: o que vale mais, combater “Fake News” ou promover censura? Para nós, é óbvio que censurar é muito pior do que propagar notícias falsas. Pois, mesmo sendo uma empresa privada, em suas diretrizes o Facebook se compromete a ser uma rede social de âmbito público e que irá defender a liberdade de expressão de seus usuários. Além disso, ela atua em ambientes estatais, como por exemplo em épocas de eleições, momento em que a rede consegue gerar altos lucros, pois os usuários e grupos, entre estes os que foram desativados, investem dentro do Facebook com o objetivo de terem um maior alcance das pessoas. Portanto, sendo também um produto, o Facebook feriu um direito do consumidor.

Porém, o que mais nos assusta é ver como essa censura foi apoiada por BIBLIOTECÁRIOS. Pois, se lembrarmos do nosso juramento, precisamos preservar o cunho LIBERAL de nossa profissão. Se temos essa missão, então devemos sempre defender a liberdade de expressão!!! Contudo, não é isso que tem acontecido.

Além do mais, apenas páginas de direita sofreram essa censura. Por que não páginas de esquerda? Se formos contar a quantidade de “Fake News” que já lemos em diversas páginas de esquerda nessa rede social, acredito que não caberia em um único post. É vergonhoso defender essa atitude do Facebook. Lembrem-se, o homem possui três direitos naturais: a vida, a propriedade privada e a liberdade. Entretanto, essa rede violou um dos nossos grandes direitos naturais, a liberdade.

Muitas das páginas que foram desativadas alguns de nós conhecíamos. Sinceramente, jamais presenciamos uma notícia falsa vinda das páginas que acompanhávamos. Na verdade, o conteúdo muitas vezes era ótimo, com fontes e dados verídicos. É inadmissível esse movimento que o Facebook vem fazendo desde o escândalo da Cambridge Analytica. Não podemos cruzar os braços diante dessa barbaridade.

Lembrem-se também que as ditaduras totalitárias do século XX utilizaram da censura para controlar as massas e se manter no poder. O historiador Robert Darnton, Diretor da Biblioteca de Harvard, EUA, publicou recentemente um livro intitulado “Censores em ação: como os Estados influenciaram a literatura”. Em um dos capítulos Darnton analisa como autores e editores tentavam burlar de todas as formas o regime comunista totalitário na Alemanha Oriental, pois eles não gostavam da palavra, principalmente quem fosse contra o Governo. Se fossem pegos publicando, eram mortos. Era uma ditadura extremamente violenta, como foi possível observar durante o levante de Berlim, em 17 de junho de 1953. Além disso, sempre que alguma editora autorizada pelo regime iria publicar um livro, este livro deveria ser analisado por censores, se fosse o caso, o livro voltava e a editora deveria fazer modificações que ficassem de acordo com as vontades do regime comunista.

Na verdade, se formos pensar no “modus operandi” desses Governos, a primeira forma de censurar para manter a população alienada aos seus ideais era queimando livros e destruindo bibliotecas. Pode-se identificar esse tipo de situação nos dias atuais, pois é um dos modos de atuação do grupo fundamentalista religioso Estado Islâmico.

Portanto, é grave que, em um ano de uma eleição tão importante para o Brasil (talvez a mais importante de nossa história) o Facebook esteja atuando de uma forma tão totalitária e censurando páginas simplesmente por não concordarem com o conteúdo. Isso precisa acabar! Os bibliotecários que defenderam essa atitude precisam repensar o por que decidiram cursar e se graduar em biblioteconomia, pois por mais que tenham uma ideologia totalmente contrária a essas páginas, é uma atitude vergonhosa apoiar uma censura tão baixa. A democracia, para sobreviver, precisa de liberdade e, principalmente, de verdadeiros debates de ideias.

“Fake News” se resolve de um jeito simples, é só não compartilhar! Já censura, aí o bicho pega mesmo!

Fica essa frase de um dos mais famosos economistas e filósofos do século XX, o austríaco Ludwig von Mises, para nos lembrar que, por mais que não concordemos com a opinião do próximo, devemos defender até a morte o direito do mesmo dize-las.

Obs: ATUALIZAÇÃO!
Em nota, o Facebook afirmou que o motivo da retirada das páginas e usuários do ar não foi por Fake News, mas pelo fato dessas páginas influenciarem a opinião pública, no que acaba gerando discussões dentro da rede. Então, debate de ideias é proibido? Isso só mostra que a medida foi, de fato, censura e um ataque a democracia.

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Gabriel – Coordenador da SBB.