Entrevista com o professor doutor Eduardo Alentejo, fundador da Sociedade Bibliográfica Brasileira (SBB)

É com grande satisfação que trazemos hoje uma entrevista exclusiva com o fundador da Sociedade Bibliográfica Brasileira (SBB), o renomado professor doutor Eduardo Alentejo. Com uma trajetória marcada por sua atuação no Centro de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), o Prof. Dr. Alentejo compartilhará conosco sua visão sobre a criação da SBB, seus objetivos e desafios, além de suas expectativas para o futuro da sociedade.

Acompanhe essa conversa enriquecedora sobre biblioteconomia, ciência da informação e os esforços da SBB para promover o conhecimento e a reflexão no Brasil.

Cordialmente, Rodrias.

Prezado Rodrigo,

Uma oportunidade ímpar que você me proporciona, desde já muito obrigado.

Começaremos falando sobre a Sociedade Bibliográfica Brasileira (SBB). Você pode nos contar como surgiu a ideia de criar a SBB?

Sempre foi um sonho que alimentei desde a minha graduação e que ganhou força com a histórias de institutos de bibliografia e documentação como a britânica Bibliographical Society, fundada em 1892, o Instituto Internacional de Bibliografia, Bruxelas, em 1893 e o Centre de Synthèse Historique, na França em 1934. Mas, foi em 2016 que descobri o empreendimento de Félix Ferreira que na reforma da Bibliotheca Fluminense criou a Sociedade Bibliographica Brazileira, em 1886 cuja divulgação foi feita por muitos jornais do Rio de Janeiro e de outros estados. Algo inédito na história desses institutos principalmente porque previa o estímulo da leitura para todos de autores brasileiros. Para mim, uma inspiração que merecia ser resgatada.

Você disse em uma entrevista que a SBB tem como objetivo “promover a reflexão e a discussão sobre a biblioteconomia e a ciência da informação no Brasil”. Como a SBB pretende alcançar esse objetivo?

Primeiro, vale destacar que como pesquisador na área, tenho observado uma polifonia acerca de fundamentos e conceitos acerca dos vários domínios da biblioteconomia. A primeira delas é resultado do internacionalismo, caracterizado pelo bibliotecário sul-africano Peter Lor como influência de um país sobre outros. Por exemplo, a associação entre biblioteconomia e ciência da informação é um termo natural adotado nos Estados Unidos – Information and Library Sciences – sim, ciências no plural – e maior do que essa influência, temos o fenômeno da Ciência da Informação no Brasil apresentada ora como termo substitutivo da Biblioteconomia ora como disciplina ou metaciência da qual alguns situam a biblioteconomia. Esse internacionalismo acabou, ao menos nos cursos de graduação em biblioteconomia, reescrevendo a história do desenvolvimento do conhecimento por meio da biblioteca, do livro, do catálogo, da bibliografia, impondo-lhe a circunstância de algo que pertence a grande área desenvolvida pelos norte-americanos, a tal ciência da informação como entendimento que buscou suplantar a Documentação dos belgas Otlet e La Fontaine – intenção bem sucedida no próprio EUA e em países cujos problemas de educação, biblioteca e analfabetismo, por exemplo, são sistêmicos, como é o caso do Brasil. Depois de esclarecer isso, posso dizer que os objetivos da SBB para as comunidades de informação é contar histórias sobre o desenvolvimento do conhecimento por meio dos documentos, da bibliografia e claro, das bibliotecas e outros centros de cultura. Além disso, publicar artigos e livros que possam ser relevantes para apresentar a ordem e clareza das coisas, afinal, ao olhar a segunda lei da termodinâmica, a entropia reside no futuro. Temos que atuar já, agora.

A SBB tem uma série de atividades e iniciativas que contribuem para o seu objetivo. Quais são essas atividades e iniciativas?

Tal como ocorreu com a primeira SBB, de Félix Ferreira, a SBB se deteve em muitos planejamentos para atividades e publicações por falta de orçamento e restrições orçamentárias advindas do setor público, federal, estadual e municipal, que impediram o avanço de muitas de suas ações. Em 2023, tinha-se a expectativa de que, por meio de editais ou chamadas de bolsas de agências de fomento, conseguiria ter os recursos suficientes para colocar em prática:

1) constituição de revista eletrônica científica para a bibliografia e documentação;

2) editora de e-book para publicações do selo SBB;

3) instituir e manter a bibliografia corrente on-line especializada para a área;

4) instituir um congresso anual e nacional para apreciar o estado da arte da produção e profissão de bibliotecários e bibliógrafos;

5) criar cursos profissionalizantes em bibliografia, intelectual e material.

A despeito das dificuldades financeiras que foram ampliadas em 2023, conseguimos, por enquanto, atingir o segundo objetivo, já temos algumas publicações sob o selo SBB. Obviamente, uma tentativa de superar tais dificuldades é oferecer serviços e produtos bibliográficos cujos lucros poderiam ser aplicados para o engajamento dos demais objetivos.

O blog da SBB é um espaço importante para a divulgação de informações sobre a biblioteconomia e a ciência da informação. Como você avalia o desempenho do blog da SBB?

O blog é um canal de comunicação com a sociedade. A SBB se configura como um espaço para todos no sentido de que o resultado do trabalho bibliográfico é para aproveitamento da sociedade, de sua variedade e multiculturalidade. É pensar que a bibliografia e a documentação não são áreas subjugadas ao formalismo da Biblioteconomia e à Ciência da Informação, compreendidas como áreas acadêmicas que envolvem diplomação. É dizer, com isso, que qualquer pessoa é capaz de produzir informação por meio do trabalho bibliográfico para várias finalidades, tais como: atender à comunidade de prática a qual o sujeito pertence ou mesmo ao infoempreenderorismo que para a SBB é a capacidade de desenvolver rendas por meio dos conhecimentos seculares da bibliografia e documentação. Talvez seja essa a razão de o blog ser consumido também por pessoas comuns, não ligadas à academia.

Você também é autor de vários livros e artigos sobre biblioteconomia e ciência da informação. Como a sua produção científica contribui para o desenvolvimento dessas áreas?

Creio que o pouco que escrevi é fruto da reflexão em desenvolvimento sobre a história do desenvolvimento do conhecimento, do livro e documentos, das tecnologias intelectuais e bibliotecas. Isso demonstra a força que a bibliografia e a documentação exercem para os progressos e memórias dos saberes, constituindo-se, assim, como as ciências reais. Bibliografia e Documentação são ciências sociais que têm sustentado as comunidades de pesquisa pelos seus efeitos de controle da informação, continuidade do conhecimento registrado e garantia de seu acesso pelas futuras gerações.

Como a SBB pretende se relacionar com outras organizações e instituições relacionadas à biblioteconomia e à ciência da informação?

A cooperação é uma característica que está na gênese do trabalho bibliotecário e é a genética do bibliotecário. Algo observável desde Cleópatra à Documentação do Século XIX, desde as várias iniciativas de associação bibliotecária no início do Século XX aos Princípios de Paris em 1961 e desde o surgimento do formato MARC ao Programa de Controle Bibliográfico Universal, da IFLa/Unesco em 1977. Em qualquer época da história do conhecimento, a cooperação é a base destes e de tantos outros empreendimentos que se traduzem num fenômeno social nato ao trabalho bibliográfico: universalização do conhecimento. Na Era Digital, essa vocação se torna estreita e exige um relacionamento em busca da transferência tecnológica, da cooperação técnica e do intercâmbio da informação bibliográfica, livre de barreiras. Estas são as características que sustentam o relacionamento da SBB com outras instituições de ciência, memória, cultura, educação e empreendedorismo.

Quais são os desafios e oportunidades que a SBB enfrenta no Brasil atual?

Internamente, como observei acima, as dificuldades financeiras por falta de investimentos públicos, diminuição gradativa de editais e limitações de bolsas de pesquisa e de estudo são elementos acentuados no ano de 2023. Externamente, os desafios estão relacionados aos problemas de educação, analfabetismo, falta de perspectivas de futuro para jovens, como o primeiro emprego, acesso à memória cultural nacional e as restrições orçamentárias – públicas e privadas – para a educação e bibliotecas. Vale ressaltar que essas dificuldades não se configuram em desânimo ou impedimento para que a SBB busque, no que couber, atender à sociedade.

O que o professor Alentejo espera que a SBB alcance nos próximos 10 anos?

Eu espero que a SBB alcance essa longevidade e que continue a despeito de eu estar aqui. Espero que as gerações futuras mantenham a SBB de pé, atuante e que tenham a garra necessária para dar sua continuidade e a melhore, sempre.

Por fim, gostaria de lhe perguntar sobre o futuro da SBB. Quais são as suas expectativas para a SBB nos próximos anos?

O futuro da SBB é incerto, no futuro reside a entropia e a desordem das coisas. No entanto, como fatalidade, a universalização do conhecimento foi iniciada, é irreversível e um dia se cumprirá para a humanidade, espero que a SBB esteja lá para ser testemunha desse destino inexorável da humanidade: universalização do conhecimento.

Bibliografia sobre História da Medicina

Por Rodrias

A SBB compartilha com vocês uma excelente fonte de informações sobre a História da Medicina: a bibliografia da Biblioteca do Centro de História da Universidade de Nova York (NYU).

A bibliografia inclui livros, artigos, dissertações e outros materiais, divididos em várias categorias, incluindo história geral da medicina, história da medicina no Brasil e história da medicina em outras regiões.

A bibliografia é uma ferramenta valiosa para pesquisadores, estudantes e profissionais da área da saúde.

Clique no link para acessar a bibliografia:

https://nyamcenterforhistory.org/category/bibliography/

#SBB#Biblioteconomia#CiênciadaInformação#HistóriadaMedicina#NYU

Posicionamento da SBB sobre a nova lei da mordaça (PL 2630/20)

Bibliotecas e arquivos foram as primeiras fontes de informação para o processo civilizatório e para o desenvolvimento do pensamento científico, humanístico e cultural. Elas foram e continuam sendo fundamentais para o progresso humano. Na história da humanidade, muitas bibliotecas foram destruídas por vários motivos, dentre os quais, calar a boca de bibliotecários, bibliógrafos e da sociedade, impondo, no fim das contas, censura pré e pós coordenada. Peter Lor (2008), especialista em Biblioteconomia Internacional e comparada e na história das bibliotecas, defende que uma das maiores ameaças ao avanço do conhecimento e do progresso das bibliotecas é a censura imposta pelo Estado. A literatura científica aponta uma série desses casos e, junto a ela, há outra rica literatura sobre trabalhos que defendem a liberdade de expressão. É nesse debate científico que a SBB confere o direito de liberdade de expressão, cabendo às devidas ações conforme a legislação civil e penal em suas devidas providências às instituições de Direito executar os procedimentos legais quando as normas de ética, moral e das leis forem descumpridas. Nesse sentido, a SBB se posiciona CONTRA a PL 2630/20 por entender que a sociedade pode ter perdas imensas decorrentes de censuras que podem vir a acometer o direito ao livre pensamento, base fundamental para a pesquisa, arte, cultura e ciência, direito essencialmente humanista, base da profissão do bibliotecário no Brasil e em qualquer Estado democrático.
Abaixo, deixamos algumas referências:

ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
______. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
______. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. São Paulo: Edipro, 2017.
BOUDREAUX, Donald J. Menos Estado e mais liberdade: o essencial do pensamento de F. A. Hayek. Barueri: Faro Editorial, 2017.
BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França. São Paulo: Edipro, 2016.
CHÂTELET, François (Org.). Histoire des ideologies: savoir et pouvir du XVIIIe au XXe siècle. Paris: Hachette, 1978.
DARNTON, Robert. Censores em ação: como os Estados influenciaram a literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FRIEDMAN, Milton; FRIEDMAN, Rose. Livre para escolher. Rio de Janeiro: Record, 2016.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. São Paulo: UNESP, 2014.
JEDLOWSKI, Paolo. Memória e a mídia: uma perspectiva sociológica. In: SÁ, Celso Pereira de (Org.). Memória, imaginário e representações sociais. Rio de Janeiro: Ed. Museu da República, 2005.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
LIICEANU, Gabriel. Da mentira. São Paulo: Vide Editorial, 2014.
LIPPMANN, Walter. Opinião pública. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.
MALINOWSKI, Bronislaw. Freedom and civilization. Nova York: Roy Publishers, 1994.
MENEZES, Djacir. Idéias contra ideologias: a revolução silenciosa nas universidades e a ramificação de suas teses. Rio de Janeiro: UFRJ, 1971.
NOELLE-NEUMAN, Elisabeth. A espiral do silêncio: opinião pública: nosso tecido social. Florianópolis: Estudos Nacionais, 2017.
SAKHAROV, Andrei D. Meu país e o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
_____. Progresso, coexistência e liberdade intelectual. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1976.
TOCQUEVILLE, Alexis. O antigo regime e a revolução. São Paulo: Edipro, 2017.
TODOROV, Tzvetan. Los abusos de la memoria. Buenos Aires: Paidós, 2000.

ESPECIAL: CORONAVIRUS

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Foto por Markus Spiske em Pexels.com

A SBB, como tantos outros grupos de estudos, teve suas atividades específicas temporariamente suspensas devido à pandemia do novo coronavirus. No entanto, nos voltamos agora para as atividades de informação acerca do andamento do combate ao vírus no Brasil e no mundo. Pensando em continuarmos com o nosso objetivo humanístico de bibliotecários, de levar informação concreta e livre de fake news para o máximo possível de pessoas, inauguramos a aba ESPECIAL: CORONAVÍRUS aqui no site, no menu principal.

Neste espaço, disponibilizaremos a documentação sobre o coronavírus de fontes primárias, secundárias e terciárias, como uma bibliografia online do tema. O trabalho se baseia nas fontes e dados oficiais, bem como em estudos publicados em revistas científicas renomadas na área da infectologia e especificidades afins. Além disso, faremos pequenos posts mais frequentes, nossos boletins informativos, sobre assuntos relacionados às bibliotecas e sua luta contra o coronavírus.

Divulgação do 1º Ciclo de Palestras em Bibliografia e Documentação pela UNIRIO

1º CICLO DE PALESTRAS EM BIBLIOGRAFIA E DOCUMENTAÇÃO (4)

A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) está divulgando nosso evento!

Evento aconteceu nos dias 22 e 23 de outubro de 2018 http://www.unirio.br/news/ciclo-de-palestras-debatera-bibliografia-e-documentacao.

Bibliografia na era digital, práticas científicas da documentação e o ensino na área foram assuntos abordados cientificamente no Ciclo de Palestras em Bibliografia e Documentação, o primeiro do Brasil.

A participação da Professora Ana Virgínia, docente da UNIRIO e então diretora na Fundação Biblioteca Nacional, foi fundamental para o estabelecimento da memória científica da Biblioteconomia brasileira, destacando a Bibliografia e Documentação como pilares da profissão e práticas dos bibliotecários do passado e do presente. Outro destaque é da Bibliotecária Heloísa Ottoni, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF. A bibliotecária demonstrou o papel fundamental da Documentação para o desenvolvimento científico e das bibliotecas e bibliografias especializadas para os cientistas de todo o mundo. O Professor Carlos Henrique Juvêncio, da UFF, consolidou o tema do evento com sua apresentação que relacionou o trabalho bibliográfico demonstrando a Documentação de Paul Otlet como uma marco para o aperfeiçoamento da Bibliografia. A bibliotecária Márcia Valéria Brito Costa, da Biblioteca Central da UNIRIO, exemplificou a aplicação da bibliografia e da pesquisa bibliográfica e histórica no plano da o acervo da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, UNIRIO Veja a Programação.

Também ocorreram palestras dedicadas à Bibliografia Física (Material e analítica), como destacada pelo bibliotecário e mestre em História Social, Gabriel Alves, que abordou as  funções das iluminuras nos primeiros manuscritos medievais e suas análises em meio digital. O bibliotecário Thalles Siciliano demonstrou as várias aplicações da Bibliografia Material na era digital. Em importante fundamento da Bibliografia, o bibliotecário e mestre em Memória Social, Jayme Pinho nos brindou com reflexões sobre  Bibliografia no campo da Memória Social, demonstrando o papel social de longevidade do conhecimento coletivo.

Vale destacar as duas oficinas ocorridas durante o evento. O bibliotecário e especialista em Biblioteconomia Escolar, Rodrigo Señorans, abordou o planejamento bibliográfico e salientou a fundação da SBB como instituto científico dedicado à Bibliografia e Documentação. A especialista em editoração e bibliotecária, Luiza Karft, enfatizou a era digital como imperativa para o futuro da bibliografia comercial editorial.

Com a avaliação realizada pela equipe da organização, nos meses após o evento, podemos destacar que bibliotecários, estudantes e o público em geral puderam atualizar seus conhecimentos e perceberem as potencialidades na era digital de empreendimentos em trabalhos bibliográficos.

Nós da SBB somos muito gratos aos palestrantes e por sua disponibilidade e sentimento universalista de compartilharem seus conhecimento, com isso, crescemos todos. Obrigado.BANNER SBB

1º Ciclo de Palestras em Bibliografia e Documentação

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É com muito prazer que divulgamos o folder com a programação do “1° Ciclo de Palestras em Bibliografia e Documentação” organizado pela Sociedade Bibliográfica Brasileira. O evento ocorrerá nos dias 22 e 23 de outubro de 2018, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), no auditório Técio Pacitti. As inscrições serão feitas na hora. Para mais informações, entrem em contato conosco: sbbrasileira@gmail.com. Aguardamos a participação de todos vocês!

Pequenos apontamentos sobre a Bibliografia

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Charles Victor Langlois

Em 1896, o historiador Charles Victor Langlois, em sua obra ‘Manuel de Bibliographie Historique’, apresenta a seguinte definição de Bibliografia: parte da ciência dos livros que trata sobre os repertórios e que fornece os meios para a busca de informação sobre as fontes. Tal definição distingue as bibliografias comerciais, dos livreiros, daquelas de natureza científica, que têm por finalidade oferecer informação para estudiosos. Tal sentido de Bibliografia permanece presente em quase todas as definições ainda vigentes em nossos dias. O sentido de Bibliografia como sendo parte da Documentação que se ocupa dos textos impressos, multigrafados, é mais uma etapa da evolução que passou a Bibliografia. Quando a Bibliografia ainda permanece com o sentido de ciência dos repertórios diante do surgimento de novas disciplinas na metade do Século XX: biblioteconomia e paleografia, por exemplo, o exponencial crescimento dos volumes documentários, dos suportes e do crescimento da ciência, a necessidade de controle da informação foi igualmente exponencial, surgindo ai a Documentação como sendo a disciplina de âmbito geral (REYES GÓMEZ, 2010, p. 41, tradução nossa).

Circunstâncias para o estudo em Bibliografia e Documentação

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Ao longo da história, a utopia de acesso a todo o conhecimento numa plataforma singular foi alimentada nos sonhos humanos. Verifica-se desde a Biblioteca de Alexandria com o catálogo Pinakes, contendo 120 assuntos; pelas inúmeras bibliografias ‘universais’ e catálogos coletivos nacionais, da Idade Média à Modernidade, como é caso da primeira bibliografia de caráter geral: “Bibliotheca universalis” de Konrad Gesner, arrolando 15.000 livros que foram classificados alfabeticamente pelo prenome dos autores com a clara intenção de reunir, senão toda, a maior cobertura de assuntos disponíveis nos livros escritos em latim, grego e hebraico, e a primeira Bibliografia Nacional, Grã-Bretanha, elaborada por John Bale, sendo um repertório de livros escritos por autores de um só país: “Scriptorum ilustriu Maiors Brytannie, quam nune Angliam & Scotian uocant: Catalogus”. Estimulado principalmente pela invenção de Gutenberg, tal sonho atravessou os séculos, alcançou e inspirou visionários de um mundo marcado por revoluções culturais, políticas, científicas, tecnológicas que ainda persistem em modificá-lo de algum modo. Sociedade da Informação e Sociedade do Conhecimento são denominações recentes que aparecem com frequência na mídia e nas mais diversas esferas, do acadêmico ao puramente coloquial. Essas expressões referem-se ao fenômeno do crescimento vertiginoso da quantidade de informações circulantes com uma dinâmica imparável. Furedi (2015, não paginado, tradução nossa) argumenta que com as mudanças tecnológicas, sobretudo, o advento das tecnologias da informação e comunicação, a sociedade estaria se afogando em uma enxurrada de informações trazidas pelo ritmo frenético da mudança tecnológica e acrescenta que “um passeio pela história, no entanto, nos mostra que essas preocupações não são novidade”. Pode-se dizer que, o advento dos tipos móveis de Gutenberg foi o marco para a escalada da ‘explosão da informação’. Concomitante a este fenômeno, os modos de buscar e consumir informação dos grupos humanos têm sido modificados pela exposição à informação e pelos processos de sua transferência. Na década de 1950, Bradford cunhou o termo ‘caos documentário’, expressando a necessidade de se haver mais esforços coletivos para problemas de informação através da organização e controle da informação. Ao fim da década de 1980, Wurman (1989) trouxe a noção de ansiedade da informação relacionada com a explosão informacional capaz de gerar patologias agonizantes, inibindo, por exemplo, a capacidade criativa individual ou coletiva. Com o advento das tecnologias baseadas em rede de computação, percebe-se uma mudança radical nos sistemas de transferência de informação. Se a abundância de documentação já existente podia produzir efeito de frustração para estudiosos e pesquisadores que queriam descobrir tópicos de seus interesses, a irrupção da nova mídia baseada em rede só contribuiu para o problema. A cada ano, centenas de milhares de livros, artigos, teses de doutorado, relatórios, páginas da web etc. são criados, e a documentação convencional sofre mudanças ou substituições de formatos, causando uma sensação de perplexidade e desamparo entre aqueles que buscam velocidade e eficiência na obtenção de informações (CORDÓN GARCÍA; LOPES LUCAS; VAQUERO PULIDO, 2001). Nesse aspecto, a sobrecarga da informação não está limitada apenas aos sistemas de informação, traz em si questões sociais capazes de comprometer o próprio avanço do conhecimento, seja pela dispersão de dados ou pela dificuldade de o sujeito manter-se informado, e nisso, residem ainda os problemas inerentes à formatação dos caminhos neurais humanos (CARR, 2010). Na Era Digital, por exemplo, a exposição excessiva a dados pode oferecer a sensação de disponibilidade total; contudo, isso pode causar ansiedade por mais informação (CASE, 2012). Furedi (2015, não paginado), em sua analogia da Era Digital à Era da Distração, argumenta que: “o ritmo frenético da mudança tecnológica torna difícil, se não impossível, concentrar-se em livros e textos desafiadores”. No campo da comunicação científica, Mueller e Santos (2000) destacam que no berço de estudos na área da informação, o tema comunicação científica foi explorado por métodos quantitativos, como por exemplo, nos estudos de citação, e com o tempo, foram a eles acrescidos de métodos da Sociologia da Ciência, o que permitiu tratar a ciência como fenômeno mensurável. No entanto, o conhecimento científico depende da acumulação de sua literatura por meios lógicos de aceitação coletiva e colaborativa, organização permanente, armazenamento e transferência. Isso expressa também que o acúmulo na comunicação em ciência em si representa relativa sobrecarga de informação, seja em canais formais ou informais de comunicação. E quanto maior é a produção dos registros do conhecimento, maior se torna a necessidade de oferta de serviços e produtos elaborados pelo trabalho bibliográfico, o que faz da Internet, e tudo que há nela, por exemplo, uma fonte a mais para a Bibliografia e a Documentação. Pois, como Peter Drucker (1999) já havia observado ao fim do Século XX, a experiência humana com a Tecnologias da Informação e Comunicação demonstra que elas são maiores produtoras de dados e não de informações, úteis para tomadas de decisão. Partindo da noção de uso da informação, trocamos, difundimos e consumimos informação a todo momento e há muito a ser pesquisado nesse sentido. No início do Século XXI, as bases de dados em linha se multiplicaram e as bibliotecas digitais cresceram exponencialmente, difundidas mediante modelos operacionais como tentativas de colmatar o fosso digital e limitações físicas de acesso a informações. No entanto, nenhum modelo de biblioteca digital pode ser considerado definitivo, nenhuma base de dados pode ser considerada completa, nenhum sistema de recuperação da informação se demonstra totalmente eficaz. Mesmo diante da evolução de tecnologias Web, a constante modificação dos usos e o emprego de novas tecnologias ditam novos versionamentos funcionais; desse modo, influenciando comportamentos de busca e consumo entre suas comunidades de utilizadores. Além disso, a literatura especializada concebe empreendimentos em gestão da informação como condição para se endereçar os melhores esforços de tomadas de decisão ou quaisquer outros usos da informação. Essas e outras inquietações do Século XXI refletem antigas questões; prioridades do trabalho bibliográfico, que acompanham quaisquer mudanças inerentes à natureza dos sistemas de informação. Se as constantes mudanças da comunicação da informação tiveram o trabalho bibliográfico como uma necessidade social, questões de quantidade e qualidade foram ampliadas na Era Digital. Os problemas de informação permanecem inerentes à inflação de dados correntes nos contextos de seu uso, e potencializados com a mudança do ambiente informacional, pós advento da Web 2.0. Os alardes relativos à sobrecarga da informação fecundaram, dentre outras, noções como caos documentário, explosão da informação, ansiedade da informação, mensuração da ciência e mais recentemente Big Data. Desde então, proporcionalmente, o trabalho bibliográfico parece ter sido empregado à busca de solução em quaisquer contextos de sistemas informacionais; e o documento, em todas possíveis arquiteturas e formatos, aguarda seus utilizadores. O percurso histórico do acúmulo documental e a sobrecarga da informação também indica que a Bibliografia e a Documentação permanecerão necessárias, levando aos horizontes do uso da informação tantos outros assuntos que caracterizam o presente e o futuro do trabalho bibliográfico. Todavia, os valores atribuídos à informação evidencia que a humanidade continuará a buscar a quimera de ter acesso a tudo em um único lugar. É em todo esse contexto que os estudos no campo da Bibliografia e Documentação continuam a ser atuais. O futuro do trabalho bibliográfico continuará a desenvolver-se na seguinte proporção: quanto maior o valor social à informação maior se exigirá instrumentos e produtos que possam tanto representar a informação quanto recuperá-la, tendo como essenciais a disponibilidade de informação e o controle bibliográfico como condições em torno do processo de conhecimento que se destina ao uso da informação.

Referências

CARR, Nicola G. The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains. New York: W. W. Norton, 2010.

CASE, Donald O. Looking for information: a survey of research on information seeking, needs, and behavior. 3rd ed. London: Emerald Group, 2012.

CORDÓN GARCÍA, José Antonio; LOPEZ LUCAS, Jesus; VAQUERO PULIDO, José Raul. Manual de investigación bibliográfica y documental: teoría y práctica. Madrid: Pirámide, 2001.

DRUCKER, Peter. Desafios gerenciais para o século XXI. São Paulo: Pioneira, 1999.

FUREDI, Frank. Information Overload or a Search for Meaning? The American Interest, [S. l.], 2015.

MUELLER, Suzana Pinheiro Machado; PASSOS, Edilenice Jovelina Lima (Org.). Comunicação científica. Brasília, DF; Universidade de Brasília, 2000.

WURMAN, Richard Saul. Information Anxiety. New York: Doubleday, 1989.