Comida com histórias, com lembranças…

Por Eduardo Alentejo

Foto por Andre Moura em Pexels.com

Entre os anos 1920 e 1970, muitos inventários do folclore brasileiro foram tecidos. Maria Amália Corrêa Giffoni, Franklin Cascaes, Oneida Alvarenga, Mário de Andrade, Arthur Ramos, Maria Conceição Vicente de Carvalho, Luís Cristóvão dos Santos, Luís da Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Saul Alves Martins são alguns nomes de folcloristas que revelaram nossa riqueza cultural e cujos estudos foram imortalizados em sucessivas bibliografias, tais como: Bibliografia do folclore brasileiro (Nascimento, 1971), Bibliografia do folclore brasileiro (Colonelli, 1979) e O folclore no Brasil (Magalhães, 2019).

Mas o que se pode compreender por folclore brasileiro espelha conjuntos de fenômenos socioculturais conexos à formação do País e que abarcam muitos elementos: geografias, migrações, origens, interações, contextos, linguagens, folguedos, manifestações, saberes etc. Uma breve consulta às bibliografias supracitadas nos permite dimensionar que a natural formação multicultural do Brasil baliza nosso sentimento de pertencimento nacional.

Aqui, pondero que natural tem o sentido de interações, embates e trocas sociais ocorridas ao longo do tempo, cujos pontos de origem são difíceis de serem rastreados e se opõe à ideia de artificial da qual grupos humanos são intencionalmente introduzidos em uma dada localidade com vistas a se obter resultados multiculturais.

Se por um lado, identidades e saberes tradicionais resistem aos tempos de desapropriação cultural, por outro, agendas estrangeiras lhes buscam rapinar saberes, aforando-lhes esquecimentos no lugar de memórias, principalmente, por meio da aculturação em massa, fenômeno que se diferencia da dinâmica da cultura (Santos, 2009). Para compreender este e outros fenômenos acerca da cultura, recomendo a leitura do livro O que é cultura (Santos, 2009) da Coleção Primeiros Passos.

Mas quais atividades as comunidades tradicionais hoje podem desempenhar para se contrapor às forças de desapropriação de suas tradições? Quais aparelhos culturais lhes apoiam? Em localidades onde as manifestações populares são evidentes, aparelhos culturais como bibliotecas e atividades como turismo costumam oferecer apoios para as comunidades.

Bibliotecas são janelas para o mundo, espaços de comunicação social, de descobertas e tal como ocorre com o folclore, são constituídas de redes de cooperação capazes de provocar mudanças no seio da sociedade. No decorrer do tempo, bibliotecas brasileiras desenvolveram competência cultural, isto é, a capacidade de refletir, apoiar e promover a diversidade cultural e linguística de uma região ou nação (Hanley, 1999), tornando-se espaços de diálogos multiculturais para a cidadania ativa (Alentejo; Señorans; Matos, 2018). Como as bibliotecas devem atender a diversos interesses humanos em suas comunidades, elas funcionam como centros de aprendizado, cultura e informação (IFLA/UNESCO…, [2019]).

Ao representar a diversidade cultural, serviços bibliotecários são impulsionados pelo seu compromisso com os princípios de liberdades fundamentais, de igualdade de acesso à informação e ao conhecimento para todos, no respeito pelos valores sociais das comunidades que atendem (IFLA/UNESCO…, [2019]).

Em 2024, é urgente saber, com profundidade, como as bibliotecas brasileiras estão colocando em prática esse compromisso. Um exemplo pode ser destacado. Em 2021, em uma cidade rural do Estado do Rio de Janeiro, testemunhei que uma associação de artesãs em colaboração com a biblioteca distrital teceram uma bibliografia sobre artesanato tradicional visando atender às consultas da comunidade.

Quando se olha a história das bibliografias, pode-se inferir que o caminho da organização do conhecimento tem seu percurso do local para o nacional e deste para o internacional; rumo à universalidade do conhecimento.

E com o atual estágio de desenvolvimento da Internet, isso está mais evidente. Os versionamentos Web têm sido aplicados para descobertas de localidades, suas culturas, meio ambiente e saberes. As facilidades da Internet permitem tirar comunidades tradicionais das sombras para a visibilidade, com alcance mundial. E acompanhando a essas oportunidades, bibliotecas e outros aparelhos culturais também vão sendo divulgados na Web.

Sob os mesmos preceitos de direitos humanos, competência cultural e sustentabilidade que os guiam, o turismo e a informação turística na Web têm oferecido vantagens para as pessoas encontrarem as diversidades culturais, possibilitando aos internautas explorarem oportunidades de viagens. Por meio de plataformas digitais e recursos de localização, nunca foi tão fácil buscar e acessar informações sobre destinos e viagens.

De certo, há vários canais e perfis nas plataformas digitais que oferecem serviços de informação em turismo, como são os inúmeros exemplos encontrados sobre turismo rural e ecológico – também denominado como ecoturismo (Brasil, 2010), constituindo-se como guias de viagens assim como sítios Web especializados.

Vale destacar que entre 1965 e 2014, o Guia 4 Rodas, publicado pela Editora Abril, exercia a função de guia de viagens, impresso, para viajantes motorizados com indicações de hotéis, restaurantes, rodovias, passeios, escolas, parques, hospitais e outros pontos de referências como festividades e eventos populares (Mazolla, 2014) e por todo esse período foi o guia de referência para viajantes.

Recentemente, descobri o canal Boa sorte viajantes, https://www.youtube.com/@BoaSorteViajante, na plataforma YouTube, por meio de seu vídeo intitulado Milho Verde, um charmoso vilarejo de Minas Gerais! (MILHO verde… 2023). O que aprendi? Milho verde é um povoado localizado na Serra do Espinhaço, entre as cidades históricas de Serro e Diamantina, na região do Alto Jequitinhonha, Minas Gerais; local de nascimento de Xica da Silva e tem o turismo como a principal atividade econômica. Recentemente foi fundada a casa dos livros Sempre-Viva Editorial (MILHO verde… 2023).

No vídeo, aos onze minutos, há um depoimento de uma das moradoras, de origem quilombola (Quilombo do Baú): depois de quarenta anos no povoado, o turismo melhorou sua vida e da comunidade. Antes, ao contrário, passava-se fome e escassez.

O título Comida com histórias, com lembranças é uma frase dita pelo mentor do canal no YouTube durante sua interação com a moradora. Essa frase foi escolhida para este artigo exatamente porque expressa a mensagem que destaco: acessar à cultura do outro por meio de suas manifestações e memórias nos permite também compartilhar as nossas. No Brasil multicultural, cultura e comunicação devem acontecer em mão-dupla.

De acordo com a segunda edição sobre turismo rural, emitido pelo Ministério do Turismo (Brasil, 2010, p. 11), o turismo rural e ecológico tem papel de sustentabilidade importante para as comunidades locais:

[…] a sociedade vem descobrindo a importância ambiental e o valor estratégico de manutenção da paisagem rural, e passa a tratar rios, fauna e flora como elementos essenciais para o ser humano. Este contexto tem propiciado a revalorização do modo de vida e o surgimento de novas funções econômicas, sociais e ambientais para o espaço rural, permitindo ao agricultor novas maneiras de garantir sua permanência no campo.

Quando aparelhos culturais e turismo são instituídos numa localidade, como em Milho Verde, tornam-se aliados para as estratégias de organização das comunidades. Para tanto, saneamento básico, saúde primária e cidadania devem lhes anteceder e acompanhar (Brasil, 2020). Se o turismo baseado em sustentabilidade tem o poder de transformar vidas, orientando-se pela competência cultural, bibliotecas são espaços sociais por onde organizações de pessoas tem a possibilidade de articular estratégias de enfrentamento à cultura de massa.

Diante das manifestações culturais locais, principalmente, em áreas rurais e ecológicas, turismo e biblioteca costumam apoiar o desenvolvimento das cidades e povoados interioranos e insulares, por exemplo; tornando-se, desse modo, instituições de pertencimento público e espaços de integração entre moradores e visitantes.

Municípios sem bibliotecas ou com seu número insuficiente são susceptíveis à corrupção de seus governantes e, como consequência, sua população estará entregue à miséria, à fome e à limitação de direitos humanos e cidadania. E ao contrário do que foi reportado sobre a declaração da ministra do Meio Ambiente em DAVOS, de que 120 milhões de pessoas passam fome no Brasil (Guzzo, 2023), penso que a medida de miséria no Brasil deveria ser dimensionada pela quantidade de bibliotecas e o quanto o turismo sustentável é estimulado e contribui para as comunidades e ecologia dos saberes tradicionais.

Afeto, resiliência e união das comunidades são energias potenciais para mudar realidades por meio de estratégias de organização, de memórias, identidades e conhecimento divulgado. Bibliotecas e Turismo são aliados que nos ofertam oportunidades com histórias, com lembranças, tanto para quem fica como para quem vai.

Referências

ALENTEJO, Eduardo; SEÑORANS, Rodrigo; MATOS, Elesbão. Multicultural libraries: diversity is our strength. QQML Journal, [S.l.], v. 7, n. 1, p. 15-22, 2018. Disponível em: https://qqml-journal.net/index.php/qqml/article/view/453. Acesso em: 4 jun. 2024.

BRASIL. Ministério do Turismo. Turismo rural: orientações básicas. 2. ed. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Políticas de Turismo, Departamento de Estruturação, Articulação e Ordenamento Turístico, 2010. Disponível em: https://www.gov.br/turismo/pt-br/centrais-de-conteudo-/publicacoes/segmentacao-do-turismo/turismo-rural-orientacoes-basicas.pdf. Acesso em: 4 jun. 2024.

COLONELLI, Cristina Argenton. Bibliografia do folclore brasileiro. São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979. 294 p. (Col. Folclore, n. 19).

GUZZO, J. R. Marina Silva espalha fakenews em Davos sobre fome no Brasil. Estadão, São Paulo, 19 jan. 2023. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/j-r-guzzo/marina-silva-espalha-fake-news-em-davos-sobre-fome-no-brasil/. Acesso em: 2 jun. 2024.

HANLEY, Jerome. Beyond the Tip of the Iceberg: Five Stages Toward Cultural Competence. Reaching Today’s Youth, Maryland, v. 3, n. 2, p. 9-12,  Winter 1999.  Disponível em: https://pdkmembers.org/members_online/academy/L08-BeyondtheTipOftheIceberg.pdf. Acesso em: 2 jun. 2024.

IFLA/UNESCO Multicultural Library Manifesto. [Den Haag]: Library Services to Multicultural Populations Section, [2019]. Disponível em: https://www.ifla.org/ifla-unesco-multicultural-library-manifesto/. Acesso em: 2 jun. 2024.

MAGALHÃES, Basílio. O folclore no Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 2019. 344 p.

MAZOLLA, Mirela. 50 anos do Guia Quatro Rodas. Viagem, Grupo Abril, São Paulo, 2014. Disponível em: https://viagemeturismo.abril.com.br/materias/50-anos-do-guia-quatro-rodas-veja-todas-as-capas-do-guia-brasil/. Acesso em: 2 jun. 2024.

MILHO verde, um charmoso vilarejo de Minas Gerais! Direção e produção: Matheus Boa Sorte. 1 vídeo on-line (ca. 28 min), 2023. Disponível em: https://youtu.be/UoFlL8jbJ08?si=Ll3Vz8AwGXNFO6TH. Acesso em: 2 jun. 2024.

NASCIMENTO, Braulio do (org.). Bibliografia do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Divisão de Publicações e Divulgação, 1971. 353 p.

SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 2009. 89 p.

Como citar esse artigo:

ALENTEJO, Eduardo. Comida com histórias, com lembranças… Rio de Janeiro: SBB, 2024. Disponível em: . Acesso em: 4 jun. 2024.

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